Em artigo, deputado estadual Moisés Diniz defende a cultura dos moradores do município

Jordão não quer chuchu

Em artigo, deputado estadual Moisés Diniz defende a cultura dos moradores do município

moisesdizi161008.jpg
Deputado Moisés Diniz classificou como desinformada a reportagem sobre Jordão (Foto: Assessoria Aleac)
Jordão come mandioca cozida, cuscuz de milho, banana, mamão, manga, goiaba, e bebe caldo de cana. Só não come chuchu. Jordão anda de canoa há mais de um século, quem não anda é o bacana metido a besta do sul maravilha.

O povo de Jordão toma banho de rio, no Tarauacá e no Jordão, e não sai contaminado, doente. Por que esses idiotas da grande mídia paulista não vão tomar banho no Tietê? Por que não vão passear de bicicleta na violenta e criminosa Avenida Paulista?

A reportagem do fantástico sobre “o país dos miseráveis”, incluindo o município acriano de Jordão, é uma peça de mau gosto, desinformada, mentirosa, antiamazônica, antiflorestal e anti-indígena. As informações sobre o Jordão só convencem quem não vive aqui ou quem vive numa favela brasileira.

O Brasil tem 12 milhões de favelados. Esse número assustador pode subir para 50 milhões até 2020. Em contrapartida, como uma piada criminosa, o Brasil tem 29 mil imóveis públicos vazios, gastando anualmente 350 milhões de reais em manutenção. Sobre as diferenças entre os moradores de favelas e os moradores de Jordão eu falarei adiante.

O Brasil tem próximo a 1,8 milhões de moradores de rua. Jordão não tem nenhum. Anualmente 30 mil brasileiros, a maioria com menos de 35 anos, são assassinados ou cometem suicídio no trânsito. O custo anual desse crime permanente, que nossos impostos pagam, é de 15 bilhões de reais, de acordo com a Confederação Nacional dos Transportes. Há ainda 100 mil brasileiros que ficam com deficiências temporárias ou permanentes, entre os 400 mil feridos. Em Jordão não houve um único acidente de trânsito desde a sua fundação, em 1992.

A maior chaga do Brasil atual é o tráfico de drogas nas grandes cidades, organizado e distribuído a partir das grandes favelas. Ali impera a lei do não-estado, do traficante rico e poderoso, quando o estado só entra através da polícia, para matar e ser morta. Mulheres grávidas, idosos e crianças vivem eternos dias de medo e de terror. As mortes surgem como cogumelos de sangue e as famílias não conhecem um mês que não tenha pranto, dor e velório.

O Jordão não sabe o que é a barbárie desses modernos e hediondos campos de concentração. Em Jordão as crianças brincam nas ruas, sem a presença de veículos mortais e traficantes de droga, não precisando das frias e psicológicas creches dos grandes centros. Jordão come banana no lugar de chuchu, toma banho de cuia nos seus humildes banheiros, pois em todas as casas (à exceção da rua do Suero e adjacências) há água potável e a baixíssimo custo, quase todos inseridos na tarifa social.

O Brasil amarga a maldita cifra de 45 mil homicídios por ano, morrendo principalmente a juventude, entre 15 e 24 anos. Isso dá uma média de 25 por 100 mil habitantes, o dobro da média mundial. Em Jordão, nos últimos 9 anos, ocorreram 5 homicídios, incluindo um por acidente com caçada na floresta.

Por que esses arautos do Brasil rico não foram filmar as grandes favelas, onde vivem 12 milhões de homens e mulheres acossados pelo tráfico de drogas, pela violência das gangues e até da própria polícia, os esgotos a céu aberto, a fiação elétrica que mais parece um cipoal, a falta de escolas e de postos de saúde, de creches, balas perdidas matando crianças indefesas?

Em Jordão as pessoas dormem de janelas abertas, livres do medo e do estresse, cumprimentam aquele que passa pela rua, se conhecem pelo nome, ajudam e são ajudados pelo vizinho. Em Jordão a doença da riqueza concentrada ainda não contaminou o lugar.

Jordão tem problemas de abastecimento, mas, por conta da distância, a gasolina de lá é mais barata do que a de Rio Branco. Qual a explicação para um litro de gasolina custar 2,93 reais em Rio Branco, já que a refinaria está aqui ao lado em Manaus? Jordão não sofre a indignidade de, todos os dias, ter suas filhas e mulheres se espremendo nesses ônibus, com ar condicionado desligado para economizar diesel, não se importando com o calor do povo.

Jordão tem milhares de hectares de área verde por habitante, se colocando entre os primeiros lugares do planeta. Jordão tem um coração de oxigênio, tamanha a quantidade de água limpa e florestas ao redor, enquanto o homem das grandes cidades, coitado, vai ganhando um coração de carbono, sujo de gases apodrecidos, aflito, estressado e medroso.

Jordão não sabe o que significa a violência da pedofilia, que assusta as grandes cidades, a violência contra a mulher, a pornografia que mata a inocência e a adolescência. Jordão ainda precisa de muita coisa, mas o seu povo vive muito melhor do que os 12 milhões de brasileiros que vivem em favelas.

Jordão tem luz elétrica em todas as casas, água potável em todas as moradias (á exceção de uma rua), ensino médio e alguns cursos universitários. Um pequeno hospital para atender a baixa complexidade e ninguém lá morre por falta de um TFD. Há estrutura de segurança, estamos em fase de conclusão do aeroporto (ao custo de 2 milhões de reais apenas a parte final) e estamos interligando ao rio Murú, grande sonho da população. Para se ter uma idéia, há dez anos o IDH-Educação de Jordão era de 0,119 e hoje é de 0,425. Já imaginou se a Frente Popular não ganha o governo?

A estúpida concepção urbana, que determina a matriz do IDH, não leva em conta a ausência das inomináveis mazelas que atingem o homem nas grandes cidades. Não leva em conta os indicadores sustentáveis, de ar limpo, grandes áreas verdes, ausência da guerra sem vencedores do trânsito, vida tranqüila do interior, baixíssimos índices de homicídios, poluição quase zero, um outro jeito de viver e de relacionar com os bens materiais do planeta.

Jordão leva uma vida mais limpa, em todos os aspectos, e mais próxima do semelhante. Assim, o chuchu da Globo fica sem nenhuma serventia. Jordão não é o fim do mundo, mas o seu começo. Ali, como em outros lugares da Amazônia, está germinando a semente das biocivilizações do futuro, onde a fidelidade ao futuro, preservando nossos recursos naturais, é mais importante do que devorá-los como cupim e lagarta.

Jordão é o lugar onde o vento faz a curva, na direção de um planeta livre do inferno capitalista, que dá IDH alto para um município desde que 40% de sua população tenha alta escolaridade, morra mais tarde e tenha uma alta e sofisticada renda, não importando que os outros 60% vivam na mais absoluta miséria.

O IDH que defendemos leva em conta a variável mais vital da humanidade: a sua capacidade de sobreviver na atualidade sem destruir as condições de abastecimento natural das gerações futuras. Essa visão ecossocialista produzirá um novo modelo de medição da qualidade de vida da população que vive nas regiões florestais: o IDH da Floresta.
IDH DA FLORESTA
A floresta amazônica, entre reservas indígenas e comunidades rurais, abriga cerca de seis milhões de brasileiros, dentre os vinte milhões de amazônidas. Se retirarmos as capitais da contabilidade, a população amazônica que vive na floresta será superior a 50% (cinquenta por cento) do total.

Os dados mais tímidos apontam para uma brutal concentração de riqueza, conhecimento, privilégio e investimento nas capitais. De cada dez reais investidos na Amazônia, em torno de sete são enterrados nas capitais. Ali se constróem presídios, reformatórios e são gastos milhões de reais na repressão aos homens e mulheres que saíram da floresta para ocupar, como párias, as celas abertas da periferia.

Nas capitais e médias cidades da Amazônia estão registrados nove de cada dez casos de doenças cancerígenas, coronárias, hepáticas. São as doenças da civilização! Os acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, a prostituição e o consumo de drogas proliferam nas cidades como cogumelos. Quando o sol se ergue, o céu já está tomado de dióxido de carbono. Os hospitais se congestionam de crianças e idosos com problemas pulmonares. Os poucos igarapés estão apodrecidos, o homem urbano os entupiu de garrafas, pneus, metais pesados e outras quinquilharias. Milhares de veículos criam uma algazarra infernal, os homens gritam entre si, se exasperam, a demora é enervante, ninguém se entende. Uns se apressam para ir ao trabalho, outros para voltar, para procurar emprego, mulheres, bebida, diversão. A vida urbana é uma alucinação! 

O homem urbano procura um lugar onde o seu coração possa respirar em paz, todavia a sua cidade se transformou em um campo de concentração. Ao redor, os traficantes de drogas, a prostituição, a violência das ruas e do trânsito, a televisão pornográfica, a violência do custo de vida, do consumo. A sua casa, gradeada, cercas elétricas, cão de guarda, sirenes, se tornou uma prisão!

Os indicadores de desenvolvimento optaram por ignorar que há um outro tipo de vida, que há um outro modelo na periferia da vida. Na floresta amazônica milhões de brasileiros vivem de um outro jeito, num outro ambiente. Lá residem os povos da floresta: agricultores familiares, povos indígenas, seringueiros, quilombolas, ribeirinhos. Milhões de brasileiros que estão livres da guerra sem vencedores do trânsito, das doenças da civilização, dos homicídios e suicídios em escala crescente e incontrolável, livres do dióxido de carbono e das doenças respiratórias, do alcoolismo em massa e do consumo de drogas pesadas que, juntos, se tornaram um problema de ordem nacional. 

Ao analisarmos a vida dos povos da floresta, a partir da sua própria alma, atingimos a convicção aproximada de que precisamos construir indicadores de desenvolvimento com outra matriz. Diferente da cidade, a matriz desses novos indicadores estará centrada no vazio, na inexistência de condições. À semelhança das origens da vida, quando Deus fez o mundo do nada, o índice de desenvolvimento humano da floresta (IDH-F) também nascerá do vazio, do inexistente. Tentemos explicar essa confusão!

Os indicadores atuais têm a sua matriz na abundância de condições: existência de água potável, emprego, energia elétrica, coleta de lixo, saúde, educação, renda. Apesar de o homem da floresta necessitar de trabalho, renda, saúde e educação, dentre outros, o que medirá a sua qualidade de vida não será a abundância, mas a escassez e a inexistência. A única abundância que será inserida como critério de desenvolvimento e, portanto, qualidade de vida do homem da floresta será o ar puro de sobra e o altíssimo índice de metros quadrados de área verde por habitante. 

O IDH-F incluirá a ausência ou a escassez de condições perversas, degradantes e mortíferas que atingem a dignidade e a vida do homem urbano, mas que inexistem ou são insignificantes na floresta:
- Ausência de doenças da civilização (cancerígenas, nervosas, coronárias, hepáticas);
- Índice de homicídios e suicídios quase zero;
- Baixa frequencia de crises conjugais, em especial, a violência doméstica contra mulheres;
- Índice zero em acidentes de trânsito e suas trágicas consequências;
- Índice insignificante em prostituição, em especial a pústula da pedofilia e da prostituição infantil;
- Inexistência de consumo de drogas pesadas;
- Ausência de poluição em igarapés, riachos, córregos e lagos;
- Ausência de dióxido de carbono e de doenças respiratórias, especialmente entre crianças e idosos;
- Inexistência de grades, cercas elétricas e cães de guarda nas residências
As nove dimensões acima comporão o núcleo básico do IDH-F, incorporadas aos componentes ar puro e área verde e às outras necessidades do homem da floresta. Assim, o IDH-F se constituirá de três esferas de auferição da qualidade de vida na floresta:
a) Escassez ou inexistência das condições perversas em que vive o homem urbano, como gradiente de dominância na conformação dos indicadores;
b) Abundância de ar puro e área verde, como bem ecológico e elemento de fidelidade ao futuro;
c) Oferta de direitos básicos como trabalho, educação e saúde, como elementos universais.
Chamaremos de indicadores de felicidade e não de indicadores de desenvolvimento o processo de avaliação da qualidade de vida dos povos da floresta. Será a única maneira de afirmar o ponto de vista da floresta. Informar aos intrusos da cidade (que teimam em auferir a qualidade de vida na floresta a partir de valores urbanos) que a floresta está organizada sob a matriz do ser humano e não do capital.
Os indicadores de felicidade estarão submetidos à lógica da vida e não à aritmética do PIB individualizado. Pois, de acordo com essa lógica perversa, basta 40% da população de um município viver em condições de razoável conforto para que os indicadores de desenvolvimento atinjam elevados patamares, não importando que os outros 60% sobrevivam na mais absoluta miséria. A matriz dos indicadores de felicidade é outra. Na floresta a felicidade é altruísta, não submete o coletivo ao individual, não fragiliza o futuro a partir da destruição do lugar e, finalmente, não considera a renda como o gradiente de dominância dos indicadores. Na floresta a felicidade é solidária.

* Aprendiz de escritor e deputado estadual - Acre

Share this:

Comentários

1 comentários :

  1. Já tinha lido este artigo, è muito bom. Moisés Diniz manda muito bem quando faz a defesa do modo de vida amazônico

    ResponderExcluir

Deixe Seu Comentário