10 de novembro de 2014

Jéssica, a menina de R$ 6 milhõe$


Por: Tião Maia
Jéssica Sales
Jéssica Sales
O ainda prefeito de Cruzeiro do Sul, Vagner José Sales, é um fora-da-lei, todo mundo sabe disso. A propósito, como jornalista que acompanha a política no Acre faz mais de três décadas, posso dizer que o conheço bem. Em mais de 30 anos, o tempo de vida pública e de exercício de poder pelo dito cujo, em todo o Acre, mais precisamente no Vale do Juruá, até as pedras das calçadas sabem que ele jamais se movimentou do ponto de vista político, seja como parlamentar ou executivo, sem que fosse, primeiro, em defesa dos interesses econômicos de seu grupo ou dele próprio.
vagner e antonia sales_n
Para isso, atropela a legislação vigente ou então faz suas próprias leis baseadas em princípios nada republicanos, para dizer só isso. O atual deputado federal Flaviano Melo, governador do Estado no período de 1987 a 1990, mesmo período em que Vagner Sales exercia seu segundo mandato de deputado estadual, já chegou a dizer que ele era o parlamentar “mais caro” da bancada de apoio ao Governo, para citar só um exemplo do modo de operar do atual prefeito da segunda maior cidade do Acre.
Ainda de acordo com o que dizia abertamente o então governador Flaviano Melo, Vagner Sales e outros não menos espertos cobravam pelo apoio ao Governo de seu partido, o PMDB, em espécie ou em outros tipo de moeda, como medicamentos, máquinas e motores de barco. Os equipamentos e os medicamentos eram posteriormente trocados por votos por Vagner Sales e membros de seu grupo nos grotões do Juruá, nos então distritos de Cruzeiro do Sul como Porto Walter, Marechal Taumathurgo, Restauração, etc, dizendo que aquilo havia sido adquirido com dinheiro extraído do bolso do então deputado.
Aliás, a mesma prática do Governo Flaviano Melo, Vagner Sales quis aplicar no Governo do falecido Orleir Cameli, que vem a ser seu primo legítimo. Barrado pelo próprio governador num primeiro momento, Vagner se tornou, na Assembleia Legislativa, o mais valente opositor de Orleir Cameli. Foi o deputado que mais ajuizou ações judiciais contra o então governador. Graças a Vagner Sales e seus cúmplices, por muito pouco Orleir Cameli não terminou seu Governo na cadeia. Enquanto Orleir se virava nos 30, como diz um certo locutor, para poder se defender, Vagner Sales chegou a dizer que, se pudesse, retiraria de suas veias o sangue dos Cameli que corresse por ali. Depois, com o governador precisando de cada vez mais de apoio político para poder governar e muito provavelmente por ter chegado aos valores exigidos, Vagner Sales mudou de discurso. Da mesma tribuna de onde espinafrava o primo governador, passou a dizer que de Orleir Cameli queria ter, além do sangue, os olhos azuis à Elizabete Taylor.
Foi assim, na base da chantagem e da mentira, na troca de votos por bens materiais pelos quais ele nunca pagou, que Vagner Sales arranjou o apelido de “pai dos pobres do Juruá”. Mais tarde, grávido de pelo menos quatro mandatos de deputado estadual e, de muito poder e de muito dinheiro, ele se auto-apelidou de “Leão do Juruá”.

Na verdade, ele não é pai de pobre coisa nenhuma e muito menos leão do Juruá. É, no máximo, um coronel-de-barranco, um sátrapa, um déspota que governa uma cidade como uma espécie de Robin Hood às avessas, sempre tirando dos pobres para dar aos ricos. Enquanto Cruzeiro do Sul vivia, nos últimos meses, a pior crise de dengue de sua história, com boa parte da população doente e precisando de ajuda do poder público, o prefeito abandonou a cidade para fazer a campanha de sua filha Jéssica à Câmara Federal e de Márcio Bittar ao Governo – embora conste que nesta segunda empreitada ele não tenha usado o mesmo dinheiro e o mesmo afinco utilizados na primeira -, já que tinha a esposa, dona Antônia Rojas Sales, como candidata a vice-governadora. Tanto se ausentou, tanto abandonou a atividade de prefeito pela de cabo-eleitoral que acabou por eleger a filha deputada federal, mais votada, lembrem, que o velho parceiro de Vagner nas ilegalidades, o ex-governador Flaviano Melo. Não conseguiu isso apenas pelo esforço. Em Cruzeiro do Sul, onde todo mundo acaba por saber da vida de todo mundo, fala-se até em cifras: R$ 6 milhões. Sim, R$ 6 milhões! Teria sido esta a quantia gasta por Vagner Sales para eleger a filha.
Quando se fala em somas e em dinheiro, vem à baila, como um questionamento natural, ou mesmo como um parêntese, a riqueza dos Sales. O chefe da família, o prefeito, nunca foi empresário, não teve herança e sempre viveu do serviço público. O serviço público, como se sabe, não é mesmo um lugar para alguém ficar rico. Quem em tese vive de salário não pode virar milionário. Mas Vagner Sales o é. O homem que jamais teve sua carteira assinada como empregado de uma empresa privada e que jamais ganhou um bilhete da mega-sena é, como se sabe, um milionário – tão rico e tão esnobe que, dizem, os cavalos de raça de sua fazenda dormem no ar condicionado e só comem ração importada do Texas, nos Estados Unidos. No quesito extravagância de novo rico, consta que na fazenda do prefeito há até um casal de peixes-boi que também se alimentam de dieta especial. Fecha o parêntese.
Pois é este mesmo sujeito desqualificado, sem honra e sem moral que acaba de vir a público acusar o governador reeleito Tião Viana de comprar votos na última eleição. Sem cultura democrática e sem nenhuma sintonia com o povo de sua cidade, que votou maciçamente no governador reeleito, ele veio acusar a Frente Popular das práticas pelas quais ficou conhecido. Antes de acusar um governo reconhecido e reeleito pelo povo, Vagner Sales tem que vir a público explicar como conseguiu eleger sua filha Jéssica deputada federal, já que ela é, para o povo do Acre e do Juruá, uma ilustre desconhecida que sequer residia aqui e que no entanto se elegeu em apenas 30 dias de campanha. Ou seja, a menina, que fazia especialização médica em São Paulo, veio visitar os pais e saiu daqui com um mandato de deputada, já que Vagner Sales e o filho Fagner não puderam ser candidatos porque os dois estão condenados como fichas-sujas. Então, a menina nos faz lembrar um personagem da nossa infância: Stive Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares. Em caso de um filme sobre essa família e sua ação nefasta para a política com a corrupção e a compra de votos, já temos um título para a fita: “Jéssica, a menina de R$ 6 milhões”.

Fonte: Juruá Em Tempo

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