Sobre mídia, preconceito e suas consequências


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Não demorou muito para a grande mídia conservadora brasileira começar a tentar transformar o trágico atentado contra o jornal Charlie Hebdo, em um atentado contra a “liberdade de expressão”.
Por liberdade de expressão na nossa mídia hegemônica entenda-se: o direito de acusar sem ter provas, simular imparcialidade para defender seus próprios interesses e difundir padrões de comportamentos e preconceitos.
A morte de 12 pessoas na redação da publicação francesa, incluindo renomados cartunistas, deve ser condenada. Fato. Qualquer rejeição ao diálogo como forma de resolver diferenças não deve ser apoiada. A maioria absoluta dos muçulmanos ao redor do planeta provavelmente rejeita esse tipo de ação.
Mas horas depois do atentado nos deparamos nas redes sociais com uma onda de hashtags e desenhos com a frase “Je suis Charlie”. Aparte toda comoção que mortes tão desnecessárias quanto essas possam causar, devemos lembrar que a revista reforçava sim preconceitos e estereótipos contra uma das minorias locais, os muçulmanos. Nossa mídia local, que produz “humoristas” como Danilo Gentili e coisas do gênero, que também fazem “piadas” utilizando nossas minorias, saiu imediatamente em defesa da sua versão de liberdade de expressão, justamente aquela que citamos no segundo parágrafo.
As charges da publicação francesa eram de extremo mau gosto. Os muçulmanos na França, em sua maioria provenientes de ex-colônias daquele país, são um grupo visto com muito preconceito e ingressam no mercado de trabalho cumprindo funções que o “francês puro”, adaptado ao “estilo de vida francês”, expressão utilizada pela presidenta da Frente Nacional, a extrema direita local, não aceita exercer.
Exemplo do mau gosto das publicações da revista francesa
Exemplo do mau gosto e da agressividade das publicações da revista francesa
O panfleto da nossa direita nativa, a revista Veja, através de um de seus colunistas chega ao disparate de comparar a manifestação organizada pela União da Juventude Socialista, realizada dois dias antes das eleições presidenciais, e que se valeu de papéis picados e palavras de ordem, para demonstrar indignação com a tentativa do semanário de influenciar diretamente o resultado das urnas, com os ataques armados acontecidos essa semana na França. Ora, mas ele não está indignado justamente por um ataque contra – o que é ao seu ver – a liberdade de expressão? Então porque a manifestação pacífica da UJS é comparada justamente com um ato que representa a completa falta de diálogo?
Nossa mídia, como sabemos, tem dois pesos e duas medidas. Ou quantos pesos e quantas medidas forem necessários. De apoiadores da ditadura e de suas atrocidades a veementes defensores da liberdade de expressão, sempre usando o que for mais adequado para defender seus interesses próprios, nitidamente a serviço do imperialismo, o mesmo que massacra muçulmanos e tenta impor a sua cultura ao resto do planeta.
Vale ainda lembrar que grande parte da população se comove com a morte dos jornalistas e cartunistas e dizem “Je suis Charlie”, enquanto a morte do policial muçulmano Ahmed, justamente para defender a redação, passa batida.
Afinal, Ahmed, é só mais um trabalhador muçulmano…

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