12 de maio de 2015

Jornalismo em duas rodas: veja as aventuras do motociclista Leandro pela Amazônia


  
QuatroVentospartir desta segunda-feira (11) passo a enviar semanalmente relatos de minha viagem de motocicleta aqui para o portal ContilNet Notícias. É certamente uma satisfação a mais participar deste importante portal de comunicação do Acre no momento em que Altino Machado assume a editoria.
Confetes à parte, antes de começar o relato propriamente dito, é preciso colocar o leitor a par do que já se passou.
Sai de Cruzeiro do Sul (AC) no dia 5 de fevereiro, e até o momento foram percorridos cerca de 6,6 mil quilômetros em diferentes rodovias, passando por sete Estados brasileiros (Acre, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro). O relato que aqui terá início tem, portanto, uma defasagem temporal à qual pretendo corrigir com informações atualizadas.
A morte é uma noiva
Primeiro trecho (Cruzeiro do Sul-Rio Branco)
A viagem teve início pela BR-364 em Cruzeiro do Sul. Para um viajante que inicia seu trajeto pelo ponto mais ocidental do Brasil em direção ao Sudeste, a sensação será de que as rodovias melhoram gradativamente à medida em que se aproxima de São Paulo.
Minha percepção da rodovia, em fevereiro, por aquilo que venho acompanhando na imprensa do Estado certamente expirou, e as condições da BR parecem ter piorado bastante desde então. Mas, mesmo naquela época, já era possível afirmar que este trecho da BR-364 apresenta as piores condições de trafegabilidade de todo o trajeto. Contudo, gosto de fazer a ressalva que este não é o trecho mais perigoso. Mais adiante irei descrever algumas situações pela qual passei em regiões de tráfego intenso de caminhões.
CZS
A rodovia obriga o condutor a manter na maior parte do trajeto uma velocidade compatível com a segurança, que no meu caso variava entre 70 e 85 km/h em média. Com exceção dos dois trechos consolidados (Juruá-Liberdade e Sena Madureira-Rio Branco), onde é possível manter uma velocidade maior, acima disso é flertar com a morte.
Segundo trecho Rio Branco- Porto Velho (550Km)
A BR-364 segue em bom estado a partir da saída de Rio Branco, e contrariando minhas expectativas, piorou consideravelmente a partir da divisa com Rondônia.
É necessário realizar a travessia do rio Madeira de balsa, o que acrescenta cerca de 30 minutos a viagem. A travessia é paga e o pagamento deve ser feito em um guichê, antes de se embarcar na balsa.
TravessiaBalsa
A partir da travessia, a qualidade da pista melhora sensivelmente. Este foi justamente o trecho mais danificado pela grande cheia do rio Madeira, no início de 2014, que isolou o estado do Acre do restante do país. Ainda não foi totalmente refeito, e sempre há o risco que novas alagações venham a cobrir novamente a pista.
Por muitos quilômetros é possível perceber a marca da linha d’água da última alagação nas árvores ao redor. Fico de pé no estribo de minha moto e esta marca atinge a altura do meu peito.
LagoHidreletrica
Chego ao município de Jaci-Paraná (RO) ao anoitecer. Está caindo uma chuva fraca e decido seguir em frente, afinal, são apenas 88 km que me separam de Porto Velho.  
Cerca de dez ou quinze minutos depois na estrada a chuva torna-se torrencial, e a noite toma conta da estrada. Penso que está tudo bem, afinal, tenho uma jaqueta para me proteger, e o farol ilumina à frente. Mesmo encharcado, sigo adiante mais alguns quilômetros. Aparece a primeira curva, e o caminhão que vem no sentido contrário me deixa completamente “encandeado”. Percebo que com a chuva e a escuridão, não é mais possível determinar a trajetória dos veículos que vem no sentido contrário. Risco de colisão frontal ou de sair da pista. Meu instinto de preservação fala mais alto. Dou a meia volta em direção à Jaci-Paraná. Lá encontro uma hospedagem. Acerto minha diária e retiro a bagagem da moto.
Encharcado, percorro a sala e o corredor em direção ao apartamento. Gelado, retiro minhas roupas e ligo o chuveiro quente. Meu corpo está tenso. É o medo. Fecho os olhos debaixo da água quente e à medida que meu corpo relaxa, vejo que a morte estava me esperando, tal qual noiva ansiosa, a duas curvas adiante de onde voltei.
Deixo-a esperando no altar.
Leandro Altheman é jornalista e escritor, autor do livro "Muká, a Raiz dos Sonhos”, que pode ser encontrado no Acre, nas livrarias Nobel e Paim ou pelo telefone (68) 9281-3087 (Gesileu).
acre-rondonia

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