4 de dezembro de 2015

Reorganização das escolas: A estratégia de Alckmin foi absurda do início ao fim

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Fernando Canzian em 4/12/2015
A não estratégia do governo de São Paulo na questão das escolas deveria entrar para os manuais de como não se comunicar com a população. Foi um desastre, do começo ao fim.
Acostumado a se portar de forma opaca, seja com dados “sigilosos” ou na condução de investigações (casos do Metrô e da PM), o governador Geraldo Alckmin e equipe inferiram que a medida seria mais um passeio.
Resultado: 196 escolas do Estado estão ocupadas. É menos de 4% do total de 5.127 unidades em São Paulo. Coisa de que a PM poderia dar conta, no raciocínio do governo até aqui, não fosse a energia e o tempo livre de que os jovens dispõem.
A rede paulista perdeu um terço de seus alunos (2 milhões) desde 1998 por conta da diminuição da natalidade, da municipalização de parte do ensino e do avanço das escolas privadas. Hoje, tem 3,8 milhões de alunos. É totalmente defensável que uma reorganização seja feita.
Faltou tato, transparência e, sobretudo, comunicação para fazer desse limão (que agora azedou de vez) uma limonada.
O plano de Alckmin veio à tona no final de setembro, para valer já em 2016. Chegou a falar, do nada, na transferência de 1 milhão de alunos. Um mês depois, o total caiu para 311 mil alunos e 92 escolas.
Trata-se, portanto, do fechamento de 2% das escolas e da transferência de 8% dos alunos. Algo manejável não fosse a opacidade de sempre do governo paulista.
Bastava o governador ou seu secretário de Educação colocar “o gato no telhado” anunciando, com antecedência e publicidade, a mudança real na demografia das escolas. Uma entrevista bastava.
Depois de um tempo, aventar um plano que dependeria de um mínimo de consultas populares, tendo como objetivo economia de recursos e a melhoria das escolas restantes.
Sem sensibilidade ou estratégia para amortecer “corações e mentes”, o governo agiu como sempre. Ignorou que a mudança envolveria milhares de alunos, mães, logística de transporte e elementos subjetivos, porém fortes, como amizades e pertencimento a determinado grupo escolar e geográfico.
De defensável do ponto de vista lógico e econômico, o assunto transbordou, com a sempre elegante ajuda da PM, em uma batalha campal. Bater em estudantes de bermudas que se propõem a protestar para não serem “expulsos” de suas escolas é algo realmente difícil de defender.
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NAS RUAS, TROPA DE CHOQUE. NOS JORNAIS, BLINDAGEM A ALCKMIN
Cíntia Alves, via Jornal GGN em 2/12/2015

Na noite de terça-feira, dia 1º/12, enquanto a oposição ao governo Dilma Rousseff (PT), liderada pelo PSDB do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, obstruía a pauta de votação, a senadora petista Gleise Hoffmann pediu a palavra para informar que pela primeira vez desde a ditadura militar, uma dirigente estudantil havia sido presa pela Polícia Militar durante um protesto.
Camila Lanes, presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), participava da manifestação dos estudantes da escola Maria José, na Bela Vista, no centro da capital paulista, quando a PM de Alckmin – que tentou forçar a desocupação que ocorria em protesto ao plano de fechar mais de 90 escolas no Estado – invadiu o local. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB) precisou ligar para o governador paulista intercedendo pela liberdade da líder estudantil.
Na edição impressa da Folha, nenhuma linha sobre este fato. O que aconteceu ao longo da terça-feira entre a PM e estudantes que repudiam o que a grande mídia chama de “reorganização do ensino” paulista, aliás, foi melhor registrado em vídeos e imagens que circularam na internet. Algumas, inclusive, mostram a PM abordando menores de idade com armas de fogo. Em outras, há agressões com cassetetes a meninos e meninas à luz do dia, indiscriminadamente.
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No jornal, o assunto só é tratado na última página do caderno Cotidiano, com margem à seguinte leitura: a PM só reagiu a atos de vandalismos e à resistência dos estudantes. Folha usa imagens para reforçar a tese: põe, de um lado, a escola “alvo de depredação” em Osasco, pela manhã, ainda que seja desconhecida a autoria do ato; e de outro, a PM agindo para “dispersar” o movimento que fechava uma das principais vias de São Paulo, a Nove de Julho, “há mais de cinco horas”.
O foco da matéria da Folha impressa sequer é sobre o “confronto” entre PM e estudantes. A saída, poupando o governo Alckmin de explicações sobre as cenas explícitas de violência, foi dar destaque a ações de promotores do interior para frear a “reorganização” das escolas.
Na linha-fina, algo incomum no jornalismo da Folha: a posição do governo é privilegiada. Alckmin vende que seu plano vai melhorar o ensino, e a Folha compra.
Nos últimos quatro parágrafos, Folha diz que o impasse, pela manhã, na escola Maria José, só ocorreu após pais e professores tentarem desocupar o local. “A PM usou gás de pimenta na ação”. À noite, na 9 de Julho, a PM usou “bombas de efeito moral” e, de acordo com o relato do jornal, foi apedrejada.
Na edição impressa, nenhuma linha sobre a prisão de quatro manifestantes, dois deles menores de idade e já em liberdade na quarta-feira, dia 2/12. A versão online do jornal comporta um texto sobre a soltura, mas sem detalhes. Uma galeria com fotos do fechamento das vias centrais acompanha a matéria. Nela, aparece um PM aplicando um “mata-leão” em um manifestante. O jornal limita-se a descrever imagens e a informar que os policiais não quiseram comentar as ações de terça.
A Secretaria de Segurança e o gabinete de Alckmin foram poupados de comentar as cenas. O Painel da Folha desta quarta registra visita do tucano à redação, “onde foi recebido em almoço”, “acompanhado de Marcio Aith, subsecretário de Comunicação do governo do Estado, e Isabel Salgueiro, assessora de imprensa”. Folha blindou e brindou com Alckmin.
No concorrente, a mesma fórmula
Assim como a Folha, a edição impressa do Estadão também apresenta relatos da depredação em Osasco e conflito entre pais, professores e alunos na Bela Vista, além de destacar que os estudantes estão há dias obstruindo vias em São Paulo. Tudo isso num espaço tímido dentro do caderno Metrópole.
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O jornal diferenciou-se do concorrente com informações atualizadas sobre as prisões e ao abrir espaço para o drama de pais e estudantes que participaram de manifestações sufocadas pela PM. Mas do mesmo modo que a Folha, poupou o governo Alckmin da violência explícita que se viu na internet.
São mais de 100 as escolas ocupadas em todo o Estado desde que Alckmin anunciou o fechamento de cerca de 90 unidades. Membro do Ministério Público alegam que o governador está aplicando uma “reforma administrativa” nas escolas para cortar gastos no ano que vem. A discussão, a depender da grande mídia, não avançou nem avançará muitos passos. Sequer sobre a interferência da PM nas ações que cabem à Secretaria de Educação. No máximo, Alckmin é criticado, vez ou outra, pela “falta de diálogo”. Nada que impeça as promessas de melhorias de ocuparem o primeiro plano das reportagens.

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