ESTANCAR A SANGRIA
Afastado da pasta do Ministério da Previdência Social em quatro meses, Jucá saiu porque era suspeito de envolvimento em um caso de empréstimo bancário irregular e de corrupção. Com Temer, que acabava de assumir a interinidade do governo Dilma, a situação foi ainda mais delicada. Vazou na imprensa um áudio da delação premiada do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, no qual Jucá teria imposto a saída de Dilma como condição para o fim das investigações de políticos pela Polícia Federal:  “Tem de mudar o governo para poder estancar essa sangria”, disse ele. Parecia claro que se referia à Operação Lava Jato, que investiga um megaesquema de corrupção na Petrobras.  Em delação premiada, o ex-diretor de abastecimento e refino da estatal Paulo Roberto Costa afirmou que Jucá estava ligado ao esquema. “Eu quis dizer que precisávamos estancar a sangria na política, na economia. AFolha (de S.Paulo) pega três frases soltas para criar uma situação”, disse Jucá à época. Nos dias seguintes, o jornal subiu em seu site o áudio completo, para que não pairassem dúvidas sobre a fidedignidade das informações divulgadas.  O senador continuou dando sua interpretação (até hoje), mas não houve jeito. Precisou deixar o governo interino, para não comprometê-lo. Ao todo, ficou 11 dias. Junto com Henrique Alves, do Turismo, e Fabiano Silveira, da Transparência,  foi um dos três “homens fortes” de Michel Temer a deixar o cargo por suspeita de corrupção em poucas semanas. “Até onde sei, o PMDB não recebeu recursos irregulares”, diz.
Romero Jucá gosta de afirmar que “a mentira tem pernas curtas”. “Os números (no governo Temer) serão transparentes e realistas”, diz.  Aí se entende que ele fala sério quando se refere à ampla reforma política que pretende empreender no PMDB.  Na conversa com o senador, o interlocutor é levado a uma questão psicofilosófica que remonta ao escritor italiano Luigi Pirandello (1867-1936), autor do clássico Assim É, Se Lhe Parece.  Definida por estudiosos como “farsa filosófica”, a obra  trata da confusão entre realidade e aparência, verdadeiro e falso. Na penúria em que o Brasil se encontra, vai ser difícil para Michel Temer conciliar “números realistas” com a avidez do empresariado pela  rápida recuperação do mercado.  Os analistas financeiros, de maneira geral, são bastante pessimistas.
CORPO A CORPO
Além do problema da matemática – é uma equação difícil de fechar –, Temer precisa de apoio político.  A chamada votação “fatiada” do impeachment de Dilma – que terminou com a cassação do mandato da presidente, mas possibilitou a ela manter seus direitos políticos –, causou rebuliço no Congresso. Muita gente que apoiava Temer atribuiu a “vitória” parcial de Dilma a uma manobra do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), em favor da antiga aliada. Calheiros teria feito até corpo a corpo com parlamentares da casa para angariar votos favoráveis à presidente. “Não podemos ser desumanos”, justificou. O resultado gerou um princípio de racha na base aliada do governo. Parlamentares do PSDB e do DEM questionaram a manutenção da aliança com o PMDB, acusando o partido de ter feito um acordão com o PT.
Romero Jucá votou contra a manutenção dos direitos políticos da presidente. Mas, “ligeirinho”, tratou de fazer política. “Não foi um voto partidário, foi pessoal. Cada um votou com a sua consciência”, disse ele, enquanto Michel Temer embarcava para a reunião da cúpula do G20, na China, acompanhado de Renan Calheiros. Aventou-se a possibilidade de armação do PMDB para abrir um precedente legal e favorecer o deputado Eduardo Cunha, que, supostamente, detém um dossiê de informações privilegiadas capaz de derrubar o congresso. Não interessava nem mesmo aos peixes mais graúdos da Câmara e do Senado – muito menos a eles – que Cunha fosse cassado e acabasse julgado como cidadão comum. Agora que deverá ser, todos têm interesse em  amansar o fantasma ameaçador que ele representa. Por enquanto, Cunha está focado no secretário do programa de parceria de investimentos do governo, Moreira Franco.
Em meio à polarização que tomou conta do eleitorado no Brasil, Cunha era das poucas unanimidades entre os dois lados.  Em determinado momento, ele se tornou o símbolo maior do político corrupto. Romero Jucá prefere não se manifestar. Usa uma expressão recorrente em seu discurso. “Não prejulgo ninguém.” (Só Ciro Gomes, que, segundo ele, está mais para bravateiro, na indumentária do (Donald) Trump, do (Jair) Bolsonaro. “Eles usam o mesmo tipo de instrumento, só a linguagem muda. O Ciro gosta de espicaçar, eu não condeno. Ele deixou de ser presidente da República porque falou demais”.) Ciro pode até “falar demais” e apontar “bandidos”, mas Jucá reconhece que a imagem da classe política anda bastante desgastada. “Quando você tem uma coisa muito ruim, isso vira notícia. Não é a mídia que faz isso, os caras fazem. Só vira notícia o picareta”, acredita o senador, descontando evidentemente toda a exposição que ele próprio enfrentou ao deixar o Ministério do Planejamento de Temer. “Foi muita pancada.  
Mas eu não fujo do debate. Não tiro crítica da minha página. Hoje, eu tenho 290 mil seguidores e a minha taxa de resposta está em 25%. Minha equipe cuida disso. Quando tem um assunto mais importante, eles falam comigo.” No entender de Jucá, o povo está mais educado e, mesmo em um estado como Roraima, onde cerca de 10% dos quase 500 mil habitantes são analfabetos (segundo o senso de 2010 do IBGE), o acesso às mídias sociais mudou tudo. “Uma pessoa não é mais apenas um eleitor. Ela tem WhatsApp, Facebook, Twitter, influencia e é influenciada.  O eixo da comunicação e da leitura mudou. Passou a ser instantâneo.”  Para mostrar que está por dentro das redes sociais, Jucá diz que 70% das críticas que recebeu por apoiar o impeachment de Dilma “vieram da Índia”: “São empresas contratadas para fazer o ataque”.
ARSENAL MIDIÁTICO
Dono do maior grupo de comunicação de Roraima – com dois canais de TV, duas estações de rádio e um jornal –, ele afirma que todo esse arsenal midiático não é mais suficiente para manipular a opinião pública.  “A mídia tradicional não será mais tão influenciadora quanto foi até agora”, diz ele, cuja segunda mulher, Teresa, irmã do apresentador Emílio Surita, foi prefeita de Boa Vista quatro vezes, por diferentes partidos, e se prepara para a quinta candidatura.  Ela é ré ao lado do senador em uma ação de execução fiscal por um empréstimo irregular de R$ 10 milhões tomados ao Banco da Amazônia (Basa), no  escândalo conhecido como Frango Norte. Na ocasião, o senador teria dado como garantia sete fazendas que não existiam. Ele diz que o processo “já subiu ao STF e foi arquivado”. “Fui sócio de uma empresa que foi vendida e o novo dono fez um empréstimo no Basa e deu essas fazendas em garantia.”