"Crônica pro Totinha": Por Jorge Natal


Era o início dos anos 80. A Redemocratização e o PMDB estavam na moda. Vagner Sales era apenas um barnabé, que vivia se queixando das “perseguições” perpetradas pelo então prefeito de Cruzeiro do Sul, João Tota (Arena), a quem chamava de TOTAlitário.


A coisa ficou tão séria ao ponto de, com uma faca na cintura, fazer tocaia para ceifar a vida do alcaide. Que ironia do destino! Sabem quem o viu naquela macabra-pitoresca cena? Osmir Lima, correligionário e co-munícipe de Sales. Os cruzeirenses têm lá seus bairrismos.

Totinha, paraibano, colecionador de bebidas e fotos, era generoso e um exímio anfitrião. Mas jamais negaria suas origens. Ao contrário, tinha orgulho de ser sertanejo e flamenguista. Às vezes turrão, às vezes direto demais, Totinha se caracterizou principalmente por ser um homem de palavra. Não foi à toa que ficou dez anos na prefeitura e depois se tornou deputado federal, por vários mandatos, diga-se de passagem.

Mas voltemos à nossa historinha. Osmir Lima, homem culto, pacifista e maçom disse-lhe: “pare com essa besteira! Mate-o politicamente. Seja candidato a vereador e faça uma dura oposição a ele”. Resumo da ópera: Sales não só foi candidato como foi o mais votado naquelas eleições.

Final de mandato, o prefeito, que mudara a pouquíssimo tempo para a sua nova casa, na fazenda, decidiu inaugurar uma piscina. Era vaidoso. Convidou a elite intelectual e financeira da cidade: comandantes do Corpo de Bombeiros, do Exercito e da PM. Os delegados da PF e RF, além do pessoal da Coletoria. Eram todos de sua cozinha. Festa apenas para os mais próximos.

Sabendo da “nabalesca farra”, Sales, insinuando que era à custa do erário, matutou, matutou até que... Hum, disse ele: “se o prefeito quer aparecer, pois vou levar o público pra ele”. 

Contratou um motorista que, com sua Brasília e dois alto-falantes instalados no teto, fez o seguinte convite pelas ruas da cidade: “atenção, o prefeito de Cruzeiro do Sul, João Tota, convida, neste domingo, toda a população de Cruzeiro do Sul para um grandioso churrasco na sua nova casa. Levem roupas de banho. Os caminhões sairão dos locais, x y, z....

Por volta das 10 horas daquele ensolarado e fatídico domingo, Totinha, que estava degustando e exibindo uma cachaça-de-cabeça para seus seletos convidados, dá-se pelo ronco de um dos muitos caminhões que chegariam àquele remoto lugar. Desceram, cumprimentaram e parabenizaram o político. Somente naquele momento João Tota se deu conta da enrascada em que estava metido.

Que nada! Mandou imediatamente matar um boi e pediu para os “convidados” ficarem à vontade. Também mobilizou os empregados, inclusive os que estavam de folga. E quem foi que disse que os caminhões paravam de chegar? Vieram, inclusive, os das agrovilas mais distantes. Totinha não perdeu o rebolado. Mostrando tranquilidade, incluiu carneiros e porcos ao cardápio.

Sol a pino e não parava de chegar gente em caminhões, motos, bicicleta e a pé. A piscina tinha mais de um palmo de areia. Os convivas estavam exaustos. Mas o prefeito relaxou. Soltava gaitadas com aquela inusitada situação. Num determinado momento, um empregado trouxe mais uma notícia: “acabou a carne, Seu Tota.” Era o sétimo boi sacrificado. Mas o prefeito, bonachão, nem titubeou: “mata mais um”, ordenou.

Então, Dona Vitória, mulher sábia e de fino trato, interveio: chega, Totinha!

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